sexta-feira, 22 de abril de 2011

A Paixão de Cristo: A redenção pelo sofrimento



Desafiar o “establishment” (palavra da língua inglesa que significa aquilo que está estabelecido, que é aceito, que permanece e parece intangível) parece uma das missões atribuídas a Mel Gibson. O astro do cinema, dono de cachê milionário, reconhecido como um bom ator, parte integrante das listas de homens mais bonitos de Hollywood, diretor de filmes que fizeram sucesso de crítica e público (“O homem sem face” e “Coração Valente”), não parece satisfeito em ter se tornado um milionário influente e bem-sucedido num dos mercados mais competitivos e difíceis do mundo.

Filmes épicos são, por si só, grandes desafios pelo imenso trabalho de reconstituição de época que demandam, normalmente acompanhados de uma outra situação muito complicada que é dirigir milhares de extras contratados para encenações de acontecimentos públicos. Outro problema relacionado a produções dessa monta relaciona-se ao orçamento desses filmes, inflacionado por efeitos, figurinos de época, locações em países distantes, salários dos artistas principais...

Além disso, os períodos de filmagem são normalmente extrapolados e não há qualquer garantia de que o público irá responder de forma satisfatória nas bilheterias (apesar dos altos investimentos).

Fazer um filme de época devotado a temas religiosos é tarefa ainda mais árdua e de retorno menos provável que épicos contextualizados em outros períodos ou civilizações. Além do mais, corre-se o risco de polemizar com setores conservadores da Igreja Católica ou ainda ofender outras correntes religiosas...

Mas, não é à toa que Mel Gibson estrelou “Máquina Mortífera”, ele faz jus ao título da série de filmes que o fizeram famoso no mundo todo. Resolveu levar as telas às 12 últimas horas da vida de Jesus Cristo da forma mais sangrenta possível baseando sua versão cinematográfica nas escrituras bíblicas e batendo de frente com a comunidade judaica internacional (que considerou o filme ofensivo aos judeus por perceber na história uma tendência a se considerar os membros dessa comunidade responsáveis pelo martírio e punição a que foi condenado Jesus).

Lançado nos cinemas na época da Semana Santa, “A Paixão de Cristo” se tornou um dos grandes sucessos de bilheteria do ano. Suplantou outros blockbusters (filmes hollywoodianos destinados a se tornarem campeões de público), consolidou Mel Gibson como um obstinado artesão cinematográfico (para produzir as seqüências do filme, a equipe liderada pelo astro estudou diversas pinturas e esculturas que serviram como base para a fotografia da produção; além disso “A Paixão” tem diálogos desenvolvidos em línguas faladas na época como o latim ou o aramaico) e trouxe novamente à tona os filmes épicos bíblicos.

Jesus Cristo voltou a ser manchete de jornais e revistas, não só de cinema, mas também de pesquisa, ciência, arte e mesmo filosofia e teologia. A Igreja Católica aprovou a nova versão do martírio de seu messias e as carreiras de Jim Caviezel e Monica Bellucci decolaram de vez.

Para o grande público que assistiu ao filme ficaram várias lições, entre as quais a mais valiosa, sem dúvida alguma, foi a de que para se atingir a redenção, temos que mostrar a outra face, carregar muitas cruzes, sofrer com violentas chibatadas e críticas para, afinal, subir aos céus. Como Jesus e, também, como Mel Gibson.



O Filme

Não há dor maior que aquela de uma mãe ou de um pai a acompanhar o martírio de um filho. Pois essa história, tão conhecida de todos (sejam ou não cristãos), nos mostra Maria (Maia Morgenstern, em atuação comovente), acompanhada de Madalena (Monica Bellucci), a todo o momento assistindo, sem ter o que fazer, a um dos maiores flagelos a que foi submetida uma pessoa em toda a existência da humanidade. E o mais interessante é que não estamos falando de um ser humano qualquer, mas do próprio salvador, do messias dos cristãos.

A narrativa de “A Paixão de Cristo” começa justamente com o momento em que a traição de Judas (Luca Lionello) se configura e que, sem reações contrárias por parte de Jesus (Jim Caviezel, compenetrado e competente), os soldados romanos o aprisionam e, já no caminho para a condenação a que seria submetido, o surram copiosamente, sem qualquer sinal de remorso ou comiseração. O que mais impressiona, a despeito da carnificina a que é submetido o Cristo, é sua capacidade de se mostrar soberano diante de toda a situação e ainda ser capaz de ajudar um romano ferido durante seu aprisionamento.

Há uma dignidade tão grandiosa na figura de Jesus que nos faz perceber no personagem uma aura que o faz superior ao castigo a que é submetido. Sofremos como espectadores a cada nova chicotada, em cada pontapé ou murro desferido contra ele, entretanto, apesar de todos os hematomas, cicatrizes e sangue que de seu corpo tomam posse, Cristo resiste bravamente em prol de seus princípios. Nem mesmo a morte próxima parece fazer com que ele seja demovido de toda essa presença de espírito e força que transcende aquilo que é, originalmente, humano.

E apesar dos judeus da sinagoga orientarem o curso dos acontecimentos dando especial ênfase ao castigo maior a ser aplicado ao Cristo, não são eles nem os romanos, tampouco Judas, os principais responsáveis pelo sofrimento e morte de Jesus. Os responsáveis somos todos nós, que a cada dia deixamos de viver sua mensagem de amor e fraternidade, de esperança e perdão em favor de intolerância e exclusão, dor e desespero...


Para Refletir

1- Carecemos em nosso tempo de exemplos de virtude e devoção. Vivemos num mundo egoísta e de muitos conflitos. Pouco sabemos a respeito de fraternidade e fé. Nossos jovens e crianças desconhecem certos princípios elementares que aplicados ao cotidiano nos dão mais harmonia, estabilidade e certeza quanto ao futuro. Precisamos de mais famílias devotadas a uma preparação íntegra e completa para nossas crianças e adolescentes. Temos certa urgência de palavras que restaurem a dignidade como meta a ser atingida pela humanidade. Necessitamos de mais presença e carinho, afeto e estímulo, tanto para os que constituem o futuro do planeta quanto para os que o constroem nesse exato momento. Professores, também temos o compromisso ético, a despeito de nossas orientações religiosas e morais, de colocar em pauta com nossos alunos assuntos como ética, fraternidade, igualdade, princípios e amor.

2- Quem foi Jesus Cristo? O que prega o Cristianismo? Qual a evolução histórica dessa religião que é uma das maiores dos tempos atuais e passados? Proponha a seus alunos levantamentos de várias espécies: bibliografia, filmes, reportagens, imagens e mesmo pesquisa de campo (entrevistas com religiosos, fiéis, representantes de outras igrejas, professores especializados,...).

3- Como a arte retrata Jesus Cristo e seu tempo? O filme produzido e dirigido por Mel Gibson pautou muitas das passagens filmadas em obras de arte de diferentes épocas. Que tal fazer um resgate das principais pinturas e esculturas e comparar as diferentes visões percebidas ao longo da história? Outra proposta interessante para o trabalho com arte seria a reprodução de fotografias do filme como obras de arte em variados estilos como aquarelas, mosaicos, desenhos com grafites, photoshop,...

4- O cinema trabalhou a história de Jesus de diferentes formas ao longo de sua existência. Há trabalhos que procuram olhar de modo mais crítico e outros de maneira mais condescendente com os princípios da Igreja Católica. Que tal fazer um levantamento nas locadoras de sua cidade e montar um projeto em que os alunos vejam e comparem diferentes produções a respeito dessa temática? Filmes europeus e norte-americanos, produções dos anos 1950 até a virada do século, obras baseadas em livros polêmicos (como “A Última Tentação de Cristo”) ou na Bíblia, de que forma apresentaram Jesus aos olhos do grande público que freqüenta os cinemas?

Obs.: O filme “A Paixão de Cristo” não é recomendado para trabalhos com alunos do Ensino Fundamental, pode ser utilizado a partir do Ensino Médio e deve ser analisado com atenção a partir do 3º grau (universidade).

Por João Luís de Almeida Machado
Membro da Academia Caçapavense de Letras

terça-feira, 5 de abril de 2011

Diários de Motocicleta: Sem perder a ternura jamais

Cena-do-filme-ator-escrevendo-num-diario

Um filme simplesmente inesquecível. Daqueles que depois de vistos ficam em nossa memória como referência obrigatória. Essa é a sina de “Diários de Motocicleta”, a elogiadíssima e premiada produção internacional dirigida pelo brasileiro Walter Salles. Filme inspirado nos diários de viagem de Alberto Granado e Ernesto ‘Che’ Guevara, experiência essa vivida antes do surgimento do emblemático líder revolucionário que comandou ao lado de Fidel Castro a Revolução Cubana.

E é justamente nesse ponto específico da vida de Guevara que vemos surgir a centelha revolucionária que irá alimentar os sonhos do guerrilheiro que lutou na América Latina e no continente africano. A viagem iniciada em Buenos Aires percorre as trilhas e caminhos belíssimos de um continente pouco conhecido pela maioria das pessoas que mora por aqui, na América do Sul.

Desvela também o acentuado desnível social que assola praticamente todos os países da região. Da Argentina a Venezuela, quase todos os povos recebem a ilustre visita de Guevara, ainda que naquele momento ele ainda fosse apenas um jovem aspirante ao título de medicina e não tivesse a mínima idéia de quem iria se tornar num futuro muito próximo.

O contato com essa realidade díspar, marcada pelos traços sofridos do povo e pela opulência das multinacionais e de seus sócios locais desperta um sentimento incontido de revolta e indignação por parte do jovem Ernesto e de Alberto, seu companheiro de viagem. O que deveria ser uma trilha alegre, típica de mochileiros em busca de aventura, fortes emoções e paisagens deslumbrantes, acaba se tornando a certidão de nascimento de um líder guerrilheiro socialista que iria revolucionar em sua breve passagem por esta terra todas as gerações posteriores.

A “poderosa”, nome dado à motocicleta que utilizaram em parte da viagem se desmantela ao longo do caminho e vira sucata. Parece até uma alegoria, uma figura de linguagem utilizada por Walter Salles para demonstrar o fim do sonho burguês a partir do ponto de vista de Guevara. A história da viagem registrada nos diários de Alberto e Ernesto nos mostra que poeticamente a transformação da “poderosa” em sucata realmente aconteceu e que, a partir desse momento, caminhando pelas rotas traçadas em seu mapa, os viajantes puderam reconhecer e identificar com muito maior clareza o povo latino-americano, nas suas carências e também em suas esperanças.

Por que, se por um lado os sulcos cravados na terra e no rosto desses pobres camponeses ou mineiros demonstram o empobrecimento material e toda a carestia pela qual passavam, por outro, a atitude altiva, a disposição para a luta cotidiana, o brilho incontido dos olhares e a fé inabalável em dias melhores é, igualmente, característica permanente entre chilenos, argentinos, bolivianos, peruanos...

Filme de cabeceira é o termo que utilizo para falar a respeito da filmografia que inspira minha vida. “Diários de Motocicleta” veio a se incorporar a essa restrita coletânea e abrilhantar os sonhos de todos aqueles que, como o ‘Che’ (e também esse humilde escriba que lhes dirige essas palavras), acreditam que o futuro pode ser muito mais justo, harmonioso e próspero para todos...

O Filme
Cenas-do-filme-primeiro-dois-parceiros-da-viagem-andando-a-pe-e-outra-cena-em-que-ambos-estao-no-rio-em-cima-de-uma-madeira-velha

Prestes a completar seus estudos na faculdade de medicina, o jovem Ernesto Guevara de La Serna (Gael Garcia Bernal, em atuação memorável) se une ao amigo Alberto Granado (Rodrigo de La Serna, seguro e convincente) para a realização de um sonho, cruzar o território sul-americano com mochilas nas costas, montados numa motocicleta.

Saem de Buenos Aires em direção ao sul da Argentina, para a gélida região da Patagônia, onde irão visitar a namorada de Ernesto e depois cruzar as fronteiras que separam o seu país de nascimento do Chile. As despedidas do casal de namorados tendo ao fundo a belíssima paisagem da região marcam o fim de uma era, tanto para Ernesto quanto para Alberto.

Ficam para trás a comodidade e a segurança de toda uma existência burguesa, na Argentina, um dos países mais desenvolvidos da região (que, como todos os outros também apresenta grandes diversidades e focos de pobreza), e os dois aventureiros passam a ter, a sua frente, apenas o mapa pontilhado de cidades e estradas, pelas quais nem sequer imaginavam o que iriam encontrar.

O tracejado mapa esconde rotas poeirentas, cidades pequenas, regiões de mineração, cidades grandes com seus mercadores espalhados pelas ruas, cinturões agrícolas produzindo para mercados distantes, grandes empresas de capital estrangeiro em busca de altos lucros, governos pouco interessados nos problemas de seus povos e, acima de tudo, uma população carente em termos materiais, mas rica em seus sonhos e esperanças.

O encontro com essa realidade sofrida da população de vários países revela tanto para Ernesto quanto para Alberto a necessidade de uma maior intervenção das classes socialmente esclarecidas em favor de mudanças imediatas e autenticamente radicais. Ao cruzar desertos, estradas, cidades e rios, tanto Guevara quanto Granado se transformam completamente, deixam de lado toda ingenuidade e candura que um dia tiveram e percebem a verdade dos fatos escondidos aos olhos da grande maioria das pessoas.

A percepção da pobreza, da fome e do descaso das autoridades os mobiliza a alterar os rumos de suas vidas...

Filme belíssimo, de história enternecedora, “Diários de Motocicleta” nos convida ao longo de toda a sua projeção a rever nossos sonhos e ideais, nos mobiliza para a luta que prossegue, alimenta a alma e o corpo, justamente como tanto queria o ‘Che’...
 
Para Refletir
Duas-cenas-do-filme-Dois-parceiros-da-viagem-em-cima-da-moto-e-outra-cena-que-um-dos-personagens-esta-deitado-com-a-arma-apontada-assustado

1- Gosto muito de acreditar que “o sonho não acabou”. Procuro acordar todas as manhãs levando comigo essa convicção, de que é possível tornar o mundo melhor, muito mais justo, íntegro e digno. Tenho minhas referências pessoais em termos de pessoas que se mobilizaram em suas vidas pela construção de ideais de solidariedade, fraternidade, tolerância, paz e amor. Nem tudo que essas pessoas fizeram ou produziram constituem verdades absolutas para mim, procuro pensar nas mesmas como seres humanos, capazes de grandes feitos e também de erros, como eu ou vocês. ‘Che’ Guevara faz parte dessa lista (apesar de não estarmos tão sintonizados politicamente) ao lado de Gandhi, Martin Luther King, Charles Chaplin e, de forma diferenciada, Jesus Cristo. Falamos muito pouco de nossas convicções e de nossos ideais. Parecemos muito mais dispostos a crítica vazia, sem fundamentação e argumentos. Temos que repensar essa postura, apostar em atitudes mais construtivas e práticas, dispor nossos estudantes a reformar o mundo, a renovar o amanhã. Só assim os sonhos se tornarão realidade. Só assim poderemos dormir o autêntico sono dos justos...

2- A Revolução Cubana já foi muito estudada em décadas anteriores. Atualmente ela está um tanto quanto esquecida nos currículos escolares. Não se trata simplesmente de buscar as informações históricas, mas, muito além delas, perceber o que significa o socialismo na prática, com seus problemas e riquezas, suas incertezas e realizações. Que tal recolocar esse tema em pauta para a realização de um projeto?

3- Biografias são significativas para o estudo da história, da sociologia, da filosofia e também para a compreensão da alma e corpo de povos e culturas. Somos herdeiros de ricas heranças legadas por líderes, artistas, esportistas, literatos, cineastas, educadores e cientistas (entre tantas áreas de atuação e realização). Um exame atento da vida desses expoentes pode auxiliar nossos estudantes na compreensão de nossas raízes e matrizes. Que tal organizar uma mostra de filmes com personagens históricos de vulto? O início dessa mostra poderia conter histórias como a de ‘Che’ Guevara, Gandhi, Jesus Cristo, Chaplin, Vargas, Pelé,...

4- A sala de aula é local de construção de conhecimentos. Disso nenhum educador duvida. Só que nosso trabalho vai muito além, atingindo, inclusive, a formação ética, cidadã e de caráter de nossos educandos. Quando trabalhamos a história, a literatura, as artes, a geografia, as ciências ou a matemática com exemplos de vidas dedicadas a essas nobres áreas de estudo, pesquisa e atuação, damos aos estudantes subsídios valiosos para que se consolidem entre eles os valores que almejamos para a sociedade. Poderíamos tentar tornar as aulas ainda mais interessantes se incluíssemos aos nossos conteúdos a vivência desses personagens notáveis. O que acham? Ao falar de física poderíamos contar um pouco da vida de Einstein, em geografia deveríamos lembrar o mestre Milton Santos, em literatura temos que referenciar nossas explicações em expoentes como Machado de Assis, em artes não podemos deixar de lembrar de Monet ou Picasso,...

Obs.: Outro trabalho interessante a ser realizado com o apoio do filme “Diários de Motocicleta” pode ser um mapeamento da rota trilhada por Guevara e Granado e suas peculiaridades geográficas, tanto no aspecto físico quanto econômico e social.

Por João Luís de Almeida Machado

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Uma Verdade Inconveniente: Rumo a extinção da vida no planeta


“A era das protelações, das meia-medidas, das ações a curto-prazo, dos adiamentos, está terminando. Em seu lugar estamos entrando numa era de conseqüências.” (Winston Churchill, primeiro-ministro britânico, na década de 1930, quando o país passou por um estado de emergência causado por questões ambientais).
Icebergs descongelando. Furacões e enchentes em diferentes partes do mundo. Florestas ameaçadas por incêndios. Fábricas soltando toneladas de fumaça na atmosfera. Muitas pessoas acreditam que, tendo em vista as dimensões de nosso planeta, desastres ambientais de grande intensidade, por maiores que venham a ser, não são capazes de tornar impossível a continuidade da vida no planeta. A essas pessoas é dirigida a mensagem de Al Gore, senador norte-americano, candidato derrotado por George Bush à presidência da república e que se tornou, nos últimos anos, um dos maiores e mais destacados líderes em favor da luta contra o aquecimento global de que se tem notícia.

E para atingir públicos ainda maiores, de preferência obtendo repercussão nos quatro cantos do mundo, Gore protagonizou palestras em várias instituições, criou materiais através dos quais apresenta e discute o tema do aquecimento global e, para dar maior impacto a sua cruzada mundial, produziu o filme “Uma verdade Inconveniente”.

Para ilustrar com clareza a tese de que estamos cada vez mais desprotegidos e também para comprovar que somos todos cúmplices no movimento que está levando o Planeta a derrocada final, em uma de suas falas iniciais no filme, Al Gore nos lembra o pensamento de Carl Sagan, renomado e reputado astrônomo norte-americano, mundialmente famoso.

Segundo Gore, Sagan comparava a atmosfera terrestre a uma fina camada de verniz utilizada para proteger, dar brilho e manter por período mais prolongado de vida um globo terrestre. 

Trata-se, portanto a atmosfera, de uma camada que, sendo assim tão reduzida, e tendo pela frente toda a ação humana que alterou completamente o equilíbrio da vida na Terra, fragilizou-se de tal maneira, que já não atua como antes o fazia na redução dos efeitos da radiação solar sobre o planeta e os seres que aqui vivem.
Mas o que realmente aconteceu?

A atmosfera, que até recentemente era fina o suficiente para deixar os raios ultravioleta emitidos pelo Sol e direcionados ao planeta Terra, aqui entrar e depois sair, conservando dentro dos limites de nossa nave-mãe uma parte dos mesmos, praticamente a medida exata de nossas necessidades (para que sejamos capazes de sobreviver ao frio extremo que existiria caso esse mecanismo não fosse assim ou ainda, para que não sejamos literalmente “cozidos” ou “fritos” se as doses de radiação que aqui permanecessem fossem excessivas), está passando por um processo de “engorda”, ou melhor dizendo, está sendo engrossada.

Varias-imagens-de-muitas-fumacas-poluindo
A poluição do ar, do solo e das águas ocasiona e acelera o efeito estufa.

E o que está ocasionando isso? O chamado “Efeito Estufa”, ou seja, a emissão de gases, fumaça, poluentes, resíduos químicos ou ainda de qualquer tipo de detrito produzido pela humanidade a partir de sua ação na crosta terrestre. Isso inclui, também, os oceanos e toda e qualquer ação que altere a harmonia ali reinante e que esteja sendo produzida pelos homens através de seus processos produtivos (e destrutivos). Esse fenômeno, em sua totalidade, “aprisiona” mais calor na Terra, em virtude da excessiva emissão de dióxido de carbono na atmosfera, e promove o que conhecemos como aquecimento global.

A quantidade de dióxido de carbono que estamos lançando no ar, no solo e na água é tão elevada que as estimativas científicas para os próximos 50 anos indicam que estaremos tendo, ano após ano, recordes sucessivos de altas temperaturas. E isso já é claramente visível se levarmos em conta o que ocorreu ao longo dos últimos 50 anos nas regiões geladas da Terra, em suas diversas localidades: no Himalaia, nas Rochosas norte-americanas, nos Andes, nos Alpes, no Alasca, na Groenlândia, ou ainda nos pólos Norte e Sul. É uma mensagem muito clara e evidente para todos nós, ou seja, se não fizermos alguma coisa, todo o planeta será seriamente afetado, a ponto de não sermos mais capazes de sobreviver, de resistir.

Faltará água potável. Alimentos escassearão em virtude da diminuição das áreas de plantio. A desertificação aumentará de proporção em todos os continentes. Espécies vegetais e animais sucumbirão e se tornarão extintas em tempo recorde. A humanidade terá muitas dificuldades para sobreviver, se lograr isso...

A preocupação com as mudanças climáticas atinge as pessoas como deveria? Não. Ficamos sabendo e nos mostramos sensibilizados em relação a isso. Notícias de desastres ambientais provocados pelas mudanças climáticas tornam-se a cada dia mais freqüentes e não ocorrem de forma isolada, afetando apenas algumas localidades ou continentes. Adentramos a era das conseqüências, como previu Winston Churchill, ainda na década de 1930, como destacado no início desse texto e no filme “Uma verdade inconveniente”, de Al Gore.

Apesar disso, parecemos sempre muito mais preocupados com o que acontece num contexto muito imediato e particular. Desastres ambientais ocorridos na China ou na Índia, tufões que causam enorme destruição nos Estados Unidos ou no Japão, desertificação crescente que afeta os países africanos ou ainda enchentes e ondas de calor acentuadas que aumentam os índices de mortalidade na Europa são realidades muito distantes.

Só parecemos realmente nos importar quando esses inconvenientes ocorrem diretamente conosco. As imagens da televisão e as notícias dos desastres na internet são rapidamente esquecidas e tudo fica para trás por conta de nossos compromissos pessoais. E que mundo estamos deixando para nossos herdeiros?

Imagem-de-degelo-de-uma-montanha
O degelo das montanhas e das regiões geladas do planeta aumenta o nível dos oceanos.

Somos já, enquanto geração que está nesse momento escrevendo a história do planeta, atuando na linha de frente dos processos produtivos que caracterizam o fenômeno da globalização, pessoas que receberam um legado comprometedor, com a Terra já bastante devastada em virtude da ambição desmedida, do não comprometimento com a saúde do ambiente e da necessidade de cavar cada vez mais fundo, em busca das últimas gotas de petróleo ou ainda de crescentes quantidades de ferro, manganês, cobre ou qualquer outro tipo de minério.

Demos continuidade a ampliação desmedida das áreas de plantio e, em contrapartida, diminuímos sensivelmente a cada ano os espaços destinados as florestas. Tornamos maiores também os índices de produção e produtividade de nossas indústrias, desesperados por nos mostrar sempre mais “musculosos” e prontos para vencer na cada vez mais árdua disputa por mercados mundiais.

Mas, ainda assim, não nos demos conta do maior de nossos pecados. E o mais mortal de todos. Aquele que pode ocasionar não apenas a nossa purgação eterna, mas que, caso não seja detido, pode gerar milhões de mortes e comprometer para sempre o futuro de todos os seres vivos desse planeta.

E saibam, nossas crianças não estão alheias a tudo isso. Na verdade, estão muito mais ligadas do que os adultos. E temerosas do que pode lhes acontecer em virtude de nosso descaso com o meio-ambiente. O aquecimento global os faz perder o sono e supera, em muitos casos, os piores vilões dos desenhos animados, dos filmes de ação, suspense ou terror que conhecem.

Meu filho de 11 anos é prova disso. Tem acompanhado as notícias e, de tantos infortúnios apresentados na televisão, comprovando a força da natureza em sua revolta contra a humanidade, constantemente se pergunta sobre nossas possibilidades reais de sobrevivência. Numa dessas ocasiões, sentou-se ao meu lado na cama e começou a chorar, assustado com o que lhe parece ser inevitável.

Perguntou-me então, se eu achava que existia uma saída real para o aquecimento global que nos ameaça tão fortemente. Contei que cientistas e pesquisadores de várias partes do mundo estavam nesse momento debruçados sobre a questão, analisando alternativas e propondo idéias que poderiam reverter o quadro, tão desolador.

Homem-falando-diante-de-imagem-de-onda-de-fumaca
A incidência de furacões, tornados, enchentes, secas e do fenômeno da desertificação tornou-se muito maior ao longo dos últimos 30 anos.

Lembrei-lhe então de um filme que havíamos assistido, uma versão recente de “Peter Pan” levada as telas. Pedi a ele que se recordasse do momento em que a fada Sininho estava enfraquecida e prestes a morrer, pois as crianças pareciam não mais acreditar nela ou em qualquer tipo de ser encantado. Para que isso não acontecesse, Peter Pan disse a Wendy e as crianças que estavam na Terra do Nunca, que deveriam crer e dizer, em alto e bom som, que acreditavam na existência de seres mágicos como fadas, gnomos, ogros ou duendes. E as crianças do mundo todo começaram então a entoar em altos brados: “Eu acredito, eu acredito, eu acredito...”.

E a partir de então, sempre que lê ou escuta algo sobre aquecimento global, e se sente ameaçado pela devastação que estamos provocando na Terra, ele olha para mim e diz: “Eu acredito! Eu acredito!”, referindo-se no caso, a possibilidade que temos de conseguirmos salvar o planeta...

“Uma verdade inconveniente” é um filme obrigatório e certamente uma das mais importantes produções dos últimos 30 ou 40 anos. Por quê? Pois é justamente a partir de então que aumentamos e aceleramos ainda mais o ritmo de devastação que está provocando o efeito estufa e o aquecimento global... Ou agimos rapidamente ou comprometeremos para sempre a vida no planeta... Senão por nós, pelo menos pelas próximas gerações e por todos os sere vivos que estamos sacrificando...

Por João Luís de Almeida Machado

A Última Hora: A Natureza ressurgirá, a humanidade...


A Última Hora, documentário produzido e narrado por Leonardo di Caprio sobre a questão ambiental, inicia-se com imagens de impacto, mostrando ações humanas e suas conseqüências para o Planeta e para a própria humanidade.

Pesca predatória, queimadas, exploração das florestas, degelo, emissão de gases poluentes na atmosfera, extinção de espécies animais, subnutrição, epidemias, maremotos, congestionamentos monstruosos... Há um pouco de tudo aquilo que estamos impingindo a Terra ao longo de toda a nossa existência, em especial desde o advento do industrialismo como sistema econômico vigente.

Levando em conta que isso representa apenas uma reduzida parte de nossa experiência como espécie, a agressão e a velocidade por nós imposta ao ambiente assumem dimensões ainda maiores. A ferocidade com que estamos devastando as florestas, poluindo o ar, jogando dejetos nos oceanos, extinguindo animais ou promovendo o degelo das regiões polares é assustadora.

Se pudéssemos comparar com situações mais tangíveis poderíamos dizer que estamos numa luta de boxe em que os oponentes são o campeão mundial dos pesos pesados num dos corners da arena onde a luta acontecerá e no outro, como seu oponente, uma criança em idade pré-escolar. Trata-se realmente de um massacre sem precedentes.

Foto-do-protagonista-do-filme-A-ultima-hora


Nesse sentido cabe resgatar a frase de um dos especialistas que ao longo do filme A Última Hora, tenta nos alertar para o que estamos fazendo. E não há alarmismos, e sim uma importante constatação, a saber: “Se analisamos a história da humanidade se trata basicamente de uma relação entre os dois sistemas mais complicados da terra: a sociedade humana e a natureza.”

Ou seja, a palavra dos cientistas e estudiosos está nos dizendo que, a princípio, para a maioria das pessoas, o que estamos vivendo é um choque entre os nossos interesses e as possibilidades de realização dos mesmos que a natureza nos oferece. Nosso “complicado sistema” de vida, pautado no consumismo desenfreado e baseado não apenas na sobrevivência de cada um e de todos, mas estimulado de forma constante pelo marketing e pelas mídias (subsidiados pelas grandes corporações e pelos mais ardorosos defensores de seus interesses, os governos de cada nação) torna-se, portanto, algo a ser revisto e alterado.

E estamos mais do que atrasados nessa luta... Acreditamos por muito tempo que as fontes de matérias-primas que abastecem nossos empreendimentos eram inesgotáveis ou renováveis. Mesmo em relação aos recursos que sabíamos que iriam desaparecer da face da Terra em algumas décadas, como o próprio petróleo, agimos de forma irracional, aumentando de modo irresponsável o consumo.

E o que se prega para o futuro, apenas o catastrofismo, o fim dos tempos, o apocalipse?

Não, a mensagem não é essa. Nem tampouco prevalece entre os especialistas o desânimo e a descrença quanto à possibilidade de reverter o quadro que torna a cada novo dia irremediável (ao menos aparentemente) o aquecimento global, o efeito estufa, a destruição das calotas polares, a iminente intoxicação das fontes de água potável e alimentos...


Foto-de-costa-do-protagonista-do-filme-A-ultima-hora


Ainda existe a esperança e a viabilidade técnica para a reversão da destruição que vislumbramos no horizonte. O que, diga-se de passagem, não representa o final dos tempos para o planeta e o meio-ambiente, passível de auto-regeneração como já pudemos constatar ao longo de toda a história natural da Terra.

E isso fica bastante evidente a partir daquilo que nos diz outro ambientalista que participa do filme A Última Hora ao esclarecer que “Quando usamos a expressão salvar o meio-ambiente não estamos nos expressando corretamente, pois o meio-ambiente vai sobreviver, nós é que não vamos ou que talvez sobrevivamos num mundo em que não desejaremos viver”.

O que se busca então, com a preservação dos ecossistemas que garantem a vida na Terra é a sobrevivência da espécie humana? Ao agirmos em prol do meio-ambiente estamos dando continuidade ao egoísmo e a práticas autocentradas e não realmente manifestando nosso interesse na preservação de todas as vidas que compõem o tecido natural do planeta?

Penso que, de certa forma, é isso realmente o que acontece. Mas gostaria de ir um pouco além e imaginar que podemos, apesar de nossas limitações, agir num sentido plenamente coletivo – envolvendo as outras espécies e seres em nossa nova “arca de Noé” conscientes de que a diversidade é a real riqueza e de que, afinal de contas, não somos seres a par da natureza, separados e distintos de todos os outros, mas parte integrante e decisiva da mesma (sem que, com esse pensamento, estejamos nos vendo como superiores dentro do ciclo da vida natural).

E esse talvez seja um dos pontos decisivos para que as coisas venham a dar certo... Ou seja, descobrirmos que, a diferenciação que possuímos e que nos torna sobreviventes não a partir de nossos poderes e forças físicas, mas sim de nossa capacidade de entender o que temos ao nosso redor e de nos adaptarmos a tudo, criando ferramentas e meios para superarmos as adversidades que se nos impõe, se torne também a real possibilidade de superação e adequação a um novo tempo, em que a sustentabilidade prevaleça.


Imagem-do-tempo-do-filme-A-ultima-hora


Até mesmo porque as pessoas não devem pensar que o que pregam os ambientalistas é o retorno as cavernas, a uma alimentação a base de raízes e frutas colhidas nas árvores e o abandono daquilo que constituímos ao longo de toda a história humana. O que pensam é que temos que racionalizar a situação e rever ações e posturas que tornam insustentável a continuidade da vida a médio prazo.

E é nesse ponto que o filme A Última Hora surpreende e encanta. Não se tratando apenas de uma produção que poderia se juntar a todos os filmes apocalípticos de que temos notícias. Não basta apenas trazer a tona as más notícias e deixar as pessoas com medo e descrentes quanto ao futuro que se avizinha.

É necessário mostrar que as alterações não são impossíveis, que estão sendo pensadas e pesquisadas, que podem se tornar realidade se quisermos e batalharmos nesse sentido, se agirmos – ainda que individualmente, o que não dá para as pessoas uma real sensação de que as coisas realmente estão mudando (e para isso é sempre interessante recordar aquele velho ditado popular, “de grão em grão, a galinha enche o papo”).

Troque as lâmpadas incandescentes de sua casa por fluorescentes, mais econômicas. Não desperdice água. Plante árvores no seu jardim e em seu bairro. Recicle os produtos passíveis de reutilização. Não compre apenas por impulso. Escolha políticos que tenham preocupação com o meio-ambiente (não apenas da boca para fora, mas demonstrada publicamente através de ações e projetos). Utilize energias alternativas como a eólica ou a solar. Ande menos de carro e mais de bicicleta ou de transporte coletivo. Compre produtos de sua região e de empresas próximas para diminuir o tráfego de caminhões e veículos poluentes.

Há tantas coisas pequenas que podemos fazer e que, ao serem somadas enquanto esforço coletivo, ao final, promovem economia e dão mais fôlego ao meio-ambiente que não podemos simplesmente lavar as mãos e dizer que o que acontece no planeta não é também nossa responsabilidade. Pensem nisso!

A Última Hora nos revela o que a ciência tem de informações mais recentes e contundentes a respeito da questão ambiental nos últimos tempos. O filme atesta aquilo que temos visto nas manchetes dos jornais como desastres ambientais isolados, ocorrendo em pontos distantes e distintos, como sendo peças de um quebra-cabeças de grande dimensões, cujas peças, ao serem todas unidas e colocadas sobre a mesa, diante de nossos olhos, prenunciam o desaparecimento de todos e de cada um de nós... Imperdível!


Por João Luís de Almeida Machado

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Seja bemvindo ao meu blog!

Alegria, alegria, sejam sempre bemvindos!

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Mudamos para o VITHAIS!

Amigo,

A partir do início deste ano de 2011 estamos em um novo endereço na web, o VITHAIS, em www.vithais.com.br, onde todos os artigos deste site estão locados juntamente a vários outros materiais por nós  produzidos em diferentes endereços na internet.

Sinta-se desde já convidado a estar conosco neste novo endereço a partir de agora!


Espero você por lá!

Abraço.

João Luís de Almeida Machado

sábado, 20 de novembro de 2010

Um sonho possível [The Blind Side, EUA/2009]


Quais são as chances reais de sucesso na vida para uma pessoa abandonada pelo pai, cuja mãe é usuária de drogas, vivendo em ambientes onde o álcool e a violência se fazem onipresentes e que, para piorar, não consegue nem ao menos se comunicar direito?

Qualquer pessoa em sã consciência responderia de imediato a questão que abre este texto pensando em chances mínimas ou mesmo nulas para um indivíduo nessa condição. Se levarmos em consideração que tal personagem da vida real é negro e vive nos Estados Unidos, em regiões onde a discriminação racial ainda é bastante forte e presente, a questão torna-se ainda mais delicada e as probabilidades de superar os 20 e poucos anos de idade diminuem consideravelmente.

A batalha, como vemos em notícias de jornais ou na TV, nestes casos, costuma ser desigual. Crianças, adolescentes e jovens tornam-se vítimas diárias do vício, do tráfico de drogas, dos roubos, da violência generalizada que impera ao seu redor. As dores e circunstâncias negativas que existem ao seu redor se impõem e acabam fazendo com que também eles caiam na marginalidade ou que então morram precocemente.

E a sociedade com isso? O que faz? Se preocupa ou simplesmente lava as mãos, como Pôncio Pilatos, deixando cada um desses cidadãos de segunda ou terceira classe a mercê do destino ingrato que lhes parece o mais provável?

Na maioria da vezes o que ocorre é o descaso, o abandono e se evidencia a clara falência do sistema, a ignorar ou mesmo promover indireta e inconscientemente a brutalização destas pessoas. E isto se refere não apenas aos órgãos oficiais de assistência social que deveriam trabalhar em prol da dignidade de cada um destes indivíduos. Também as pessoas com alguma possibilidade de ajudar, ainda que embaladas por sonhos de justiça social e ligadas a princípios religiosos que advogam a necessidade de ajudarmos ao próximo, não se propõem a fazer alguma coisa que auxilie aos mais necessitados.

"Um Sonho Possível", filme do diretor John Lee Hancock, estrelado por Sandra Bullock (que merecidamente arrematou o Oscar de melhor atriz em 2009), nos conta a história verídica de pessoas que ousaram se importar com o destino de um desses jovens abandonados pela sorte. Ao adotarem o jovem Michael Oher (Quinton Aaron), ou Big Mike, como era mais conhecido, mudando para sempre o destino dele e também de si próprios.

O jovem negro - forte, alto e encorpado - que poderia muito bem ter se tornado traficante ou ladrão, recebe a oportunidade que precisava para superar todas as adversidades que até então tinham marcado sua breve existência. Ao ser "adotado" por uma família em que a mãe, de forte presença e personalidade, aos poucos convence a todos do acerto de suas ações, ganhando o apoio dos demais familiares quanto a este novo membro que adentra seu lar, Michael passa a ter possibilidades materiais, educação, esporte e, principalmente, a preocupação e carinho de todos para que possa vencer na vida.

Ao dedicar-se a uma pessoa que até então vagava pelas ruas da cidade, sem nem ao menos ter onde dormir, munido apenas de algumas peças de roupa, que mal balbuciava algumas palavras e que apresentava atraso em sua formação escolar, Leigh Anne Tuohy (Sandra Bullock) modifica não apenas a história de vida de Michael, mas também a dela e dos demais membros de sua família.

Fazer o bem para seu semelhante representa ganhos reais não apenas para quem recebe estas boas ações, representa igualmente uma série de benefícios para aqueles que realizam tais atos. Acompanhar a evolução, o crescimento, a maturação e o sucesso gradual, passo a passo, de uma alma boa que até então não havia tido uma oportunidade real de crescer certamente concede aos benfeitores um coração mais sadio, alguns pontos no céu, acesso ainda na terra as asas e auréola que somente os anjos possuem...

Assista o filme, sinta você também o poder das boas ações e inspire-se para fazer deste mundo um lugar melhor para se viver!

Por João Luís de Almeida Machado

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A Origem (Inseption, EUA/2010)




Acorde! Acorde! Você está sonhando. Volte a realidade. Abra bem os seus olhos...

Renê Descartes, no século XVI já colocara em questão a existência. Perguntava-se se estamos despertos ou dormentes. Se o que percebemos ao nosso redor são apenas projeções de nosso cérebro ou se lidamos, de fato, com a realidade.

A Alegoria da Caverna, de Platão, mais antiga ainda, pensada alguns séculos antes de Cristo, já parecia de certo modo disposta a nos colocar em dúvida... Vemos apenas sombras projetadas na parede? E se essa "parede" for o nosso cérebro? E se estivermos encurralados, inertes, sonados e tudo o que parecemos viver sejam apenas estímulos elétricos projetados em nosso cérebro?

"Matrix", de Andy e Larry Wachowsky, produzido em 1999, retomava estes filósofos e atrelava o nosso sono eterno ao domínio das máquinas... Parecia alertar-nos quanto ao torpor em que podemos estar vivendo desde já, ligados a internet e desligados do mundo ao nosso redor...

Até Charles Chaplin, em seu imortal "Tempos Modernos" (1936), em hilária sequência na qual seu personagem Carlitos é engolido pelas engrenagens da máquina, parecia nos dizer que a autonomia tão pretendida, de pensamentos e/ou ações pode ser apenas sonho...

"A Origem", que deveria ser chamada de "Inserção", é brilhante quanto a proposta e execução. Há, evidentemente, lacunas e dúvidas que podem comprometer aos olhos dos espectadores as qualidades do filme. A produção é, também, um pouco longa, o que, em tempos de YouTube e Twitter, com públicos ávidos por respostas rápidas, pode cansar e desmotivar quem assiste o longa.

Mas a temática está de volta... Vivemos sonhos ou realidade? O que vemos é obra de nosso cérebro, grande arquiteto que desenha e projeta cenários, pessoas, acontecimentos, sensações e tudo o mais? Descartes tinha razão? A Alegoria da Caverna é fato como pensou Platão? Existirá uma "mosca" a perturbar o sono pesado em que nos encontramos, como Sócrates na Grécia Antiga e Neo em Matrix? Quem será o Arauto? Morpheus, da mitologia grega e do clássico dos irmãos Wachowsky, nos fará prosseguir dormindo ou nos permitirá despertar?

A trama de "A Origem" projeta um futuro (ou presente?) no qual teremos tecnologia para entrar nos sonhos de outras pessoas e induzir os acontecimentos neste cenário para que encontremos dados, informações e conheçamos pessoas ou fatos que nos auxiliem em nossas vidas no mundo real. E isto é utilizado por pessoas e corporações, governos e milícias para burlar os potentes sistemas de segurança existentes fora dos sonhos e também a própria consciência dos interlocutores que pretendem "dobrar" quando dormem e sonham...

Já existem mecanismos que previnem as pessoas, e os poderosos em particular, quanto aos invasores de sonhos... E, para burlar também essa proteção, há o sonho dentro do sonho, que pode ser utilizado até em 3ª instância, iludindo, por completo, até mesmo quem foi preparado para resistir a invasão de seus sonhos...

O "pulo do gato", no entanto, é uma ação possível, de eficácia grandiosa, mas ainda não concretizada por ninguém... A inserção de ideias... Ao invés de se apropriar de informações nestas visitas aos sonhos, a proposta é fazer com que nestas incursões vendam-se ideias, de forma bastante sutil, levando as pessoas cujo inconsciente foi invadido, a pensar que elas mesmas definiram tais pensamentos como seus e não como fruto da ação de outros...

Já imaginaram o que aconteceria com o mundo se isso fosse possível? Será que ainda não é? Ou ainda, será que já não está em curso, como sugeriram Descartes, Platão, Chaplin ou "Matrix"?

"A Origem", do talentoso e polêmico diretor Christopher Nolan (que brilhou com produções como "Amnésia" e "Insônia", além de ter realizado o ótimo "Batman - O Cavaleiro das Trevas", o melhor filme do gênero), estrelado por Leonardo de Caprio (sempre intenso, convincente), com coadjuvantes de qualidade como Ellen Page (de Juno), Michael Caine, Tom Berenger, Ken Watanabe (entre outros) é filme para ser visto mais de uma vez, na busca pelos detalhes que nos escapam, para entender a construção deste sonho fílmico, de ação, velocidade, adrenalina e que, para torná-lo desde já um clássico, filosófico como é, nos atormentar... Imperdível!

Por João Luís de Almeida Machado
Membro da Academia Caçapavense de Letras